{"id":1498,"date":"2020-12-10T11:47:06","date_gmt":"2020-12-10T14:47:06","guid":{"rendered":"https:\/\/fibrabrasil.wordpress.com\/?p=1498"},"modified":"2020-12-10T11:47:06","modified_gmt":"2020-12-10T14:47:06","slug":"a-escritora-mais-mulher-do-mundo-e-um-macho-raro-metido-a-besta-ou-a-escritor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fibrainternacional.org\/?p=1498","title":{"rendered":"A escritora mais mulher do mundo \u00e9 um macho-raro, metido \u00e0 besta ou &#8220;a escritor&#8221;","gt_translate_keys":[{"key":"rendered","format":"text"}]},"content":{"rendered":"\n<p>@1flaviocarvalho, escritor e soci\u00f3logo. @quixotemacunaima<\/p>\n\n\n\n<p>Para <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/marcelia.cartaxo?__cft__%5B0%5D=AZWUGOnPG3nUe8n7S0dO3I0pA6SROi9zm_fJNIyFDQZUDrE03tkMpmNwZzu89YMO8MrO92Q6qsW_iLrH8_nxBlVdvuQVryKSIE3CGETS_cjQPYtHaPXlFewIgEe5GwmSZ80&amp;__tn__=-%5DK-R\">Marc\u00e9lia Cartaxo<\/a>, com carinho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSe eu ganhasse o mundo inteiro, de Am\u00e9lia a Doralice. De Em\u00edlia a Carolina, e os mist\u00e9rios de Clarice\u201d (Moraes Moreira, Meninas do Brasil).<\/p>\n\n\n\n&lt;p class=&quot;has-drop-cap&quot; value=&quot;&lt;amp-fit-text layout=&quot;fixed-height&quot; min-font-size=&quot;6&quot; max-font-size=&quot;72&quot; height=&quot;80&quot;&gt;Eu tinha dezesseis anos e, mesmo n\u00e3o sendo bom de lembrar, daquele dia n\u00e3o esque\u00e7o pois foi o dia&nbsp;que no Banco Bradesco da Pra\u00e7a Maciel Pinheiro, no centro do Recife, o gerente me chamou pra assinar o primeir\u00edssimo emprego da minha carteira profissional. Sa\u00ed do Teatro do Parque \u2013 onde um dia eu assistiria &lt;em&gt;Clandestina Felicidade&lt;\/em&gt;, com Adelina Pontual &#8211; e me falaram: \u00e9 ali, na Pra\u00e7a dos Judeus.<\/amp-fit-text>Eu tinha dezesseis anos e, mesmo n\u00e3o sendo bom de lembrar, daquele dia n\u00e3o esque\u00e7o pois foi o dia&nbsp;que no Banco Bradesco da Pra\u00e7a Maciel Pinheiro, no centro do Recife, o gerente me chamou pra assinar o primeir\u00edssimo emprego da minha carteira profissional. Sa\u00ed do Teatro do Parque \u2013 onde um dia eu assistiria <em>Clandestina Felicidade<\/em>, com Adelina Pontual &#8211; e me falaram: \u00e9 ali, na Pra\u00e7a dos Judeus.<\/p>\n\n\n\n<p>Judeus?!<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/fibrabrasil.files.wordpress.com\/2020\/12\/whatsapp-image-2020-12-10-at-13.31.40.jpeg?w=682\" alt=\"\" class=\"wp-image-1475\" width=\"363\" height=\"545\" \/><figcaption>Foto FC, Amaro Branco, Olinda, 2020.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Peguei boa mania de fotografia anal\u00f3gica em preto e branco e pagava mais caro pro famoso Alcir Lacerda revelar como eu queria. \u201cViu o v\u00eddeo do meu filho, sobre aquela escritora?\u201d. Houve quem disse que era mentira, que Clarice \u201cnem nunca\u201d morou no Nordeste.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem \u00e9 essa?!<\/p>\n\n\n\n<p>Caetano Veloso diz que tem dois momentos de epifania marcantes: a primeira vez que escutou Jo\u00e3o Gilberto tocando <em>Chega de Saudade <\/em>e o dia que leu e descobriu Clarice numa revista que o seu irm\u00e3o Rodrigo lhe presenteou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Clandestina Felicidade<\/em> (t\u00edtulo do seu livro invertido) \u00e9 o nome do filme sobre Clarice na sua criancice. Fui figurante acidental de uma cena de carnaval em Olinda, pertinho de onde eu morava.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Clandestina Felicidade\" width=\"640\" height=\"480\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jaxbudiXK54?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>D\u00e9cadas mais tarde, no Consulado do Brasil em Barcelona, o embaixador Naslausky pediu-me um favor. \u201cNesta tarde, entregaremos a Ordem do M\u00e9rito Cultural do Brasil \u00e0 catal\u00e3 Carme Balcells, editora de Vargas Llosa e Garc\u00eda M\u00e1rquez, e ela s\u00f3 fala de Clarice Lispector. N\u00e3o foi voc\u00ea quem me comentou sobre um tal livro dela?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois que a Balcells me desse bola por eu ser o \u00fanico naquela sala que falava catal\u00e3o (ganhei dela uma biografia escrita por outra catal\u00e3 chamada Laura, \u201co nome da galinha de Clarice\u201d, segundo Carme), chegando em casa, em Barcelona, escrevi um conto chamado <em>Lis<\/em>, lembrando uma est\u00f3ria que me contaram na Pra\u00e7a dos Judeus, no Recife. Vomitei no papel, \u00e0 l\u00e1pis (como eu mais gosto), esse conto sobre a inf\u00e2ncia da escritora, da qual eu trouxe cinco livros do Brasil pra Europa. Guardei-o, o meu conto, sem muito gostar.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante anos, na festa catal\u00e3 de <em>Sant Jordi<\/em>, Dia Mundial do Livro, vendo os meus livros j\u00e1 lidos e uns quantos mais, em cima de uma mesa improvisada na cal\u00e7ada do&nbsp;<em>Paseo de Gracia<\/em>. A \u00fanica vez que eu vendi cinco livros de uma s\u00f3 vez foi a um catal\u00e3o que me deu, em retribui\u00e7\u00e3o, um livro de Clarice entrevistadora. Naquele livro, a melhor de todas era sobre uma entrevista que, de fato, n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Corri pra casa, acabei o conto. E dessa vez gostei. Digitei e mostrei pro meu professor de escrita criativa. \u201cEst\u00e1 em portugu\u00eas\u201d, avisei-o, em castelhano. \u201cEu nasci na Galiza e posso ler em portugu\u00eas\u201d, gentilmente me respondeu. Disse-me haver gostado e eu lhe dei um livro de poemas de Chico C\u00e9sar, em galego, autografado pelo paraibano. \u201cPodes trazer-me, agora, algo sobre essa escritora?\u201d. E eu j\u00e1 n\u00e3o tinha mais nada dela. Ningu\u00e9m \u00e9 perfeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Pra arredondar, acrescentei, ao meu mesmo conto, uma hist\u00f3ria sobre a agonia de Clarice nos jantares diplom\u00e1ticos do seu marido, explicada por um vice-C\u00f4nsul que dizia haver conhecido o ex-marido de Clarice, apresentado pelo poeta pernambucano Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto quando este morou em Barcelona.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi assim que, da menina Lis no Recife, ao n\u00e3o-jantar com o (meu compositor predileto) que virou o meu escritor predileto \u2013 desacompanhado do poeta menos diplomata do mundo, Vin\u00edcius de Moraes, passando por um del\u00edrio assassino de Clarice sob um branco-diplom\u00e1tico, engravidei do meu primeiro livro. O nome da crian\u00e7a, Paraula (Palavra, em catal\u00e3o), foi tamb\u00e9m responsabilidade da escritora (\u201cinquestionavelmente brasileira\u201d) e judia. E, por isso, a cita\u00e7\u00e3o inicial \u00e9 dela: a palavra \u00e9 o meu dom\u00ednio sobre o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente perguntado sobre Clarice, Buarque, o do n\u00e3o-jantar, o predileto, sentenciou (como costuma n\u00e3o acabar algumas frases, entregado ao riso): \u201coutro dia disseram que essa bobagem da minha alma feminina era por causa dela e daqueles nossos misteriosos encontros; grande mentira, pois naquela \u00e9poca eu, com vinte e dois anos, nem a havia lido, nada dela, ainda\u201d. Vin\u00edcius de Moraes, por sua vez, disse que qualquer livro de Clarice, quando presenteado, torna-se uma potente arma de sedu\u00e7\u00e3o. J\u00e1 provei e deu certo. Garanto e assino embaixo. Viva Lispector!<\/p>\n\n\n\n<p>Longe de compara\u00e7\u00f5es, eu s\u00f3 achei que tava pronto pra auto-editar aquele meu livro no dia que me disseram (uma amiga escritora e editora) que eu era t\u00e3o metido \u00e0 besta e atrevido como um macho-raro (palavras dela) que escreve sobre (e por) Clarice, a escritora mais mulher do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois ent\u00e3o, o que danado \u00e9 ser mulher?<\/p>\n\n\n\n<p>GOSTOU DESSE TEXTO? Ent\u00e3o n\u00e3o deixe de assistir a homenagem online aos cem anos de Clarice, que acabamos de gravar. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"100 anos! Clarice Lispector, viva. O sil\u00eancio que grita.\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WfND6doPxRc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>Nela, hist\u00f3rias como essas, Laura Freixas, a bi\u00f3grafa espanhola de Clarice (em Madri); Lola Mond\u00e9jar, psicanalista clariceana e escritora e professora de escrita criativa (em M\u00farcia); Claudia Nina, talentos\u00edssima escritora brasileira, doutora em Letras em Utrecht (no Rio de Janeiro); Viviane de Santana escritora brasileira, autora dos bon\u00edssimos <em>Estrangeiro de mim<\/em> e de <em>Viver em outra l\u00edngua<\/em> (de Berlim); Tali FG, diretora do <em>Portal Desacato<\/em> (da Rep\u00fablica Dominicana); Michel Croz Martins, teatreiro e escritor, de <em>Desacatando Livros<\/em> (do Uruguai) e esse rapazinho aqui (daqui de casa mesmo).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Puigd\u00e0lber, Catalunha, 10 de dezembro de 2020. Pra CEM Clarices. Como se fosse na Pra\u00e7a dos Judeus, no Recife.<\/p>\n","protected":false,"gt_translate_keys":[{"key":"rendered","format":"html"}]},"excerpt":{"rendered":"<p>@1flaviocarvalho, escritor e soci\u00f3logo. @quixotemacunaima Para Marc\u00e9lia Cartaxo, com carinho.&nbsp; \u201cSe eu ganhasse o mundo inteiro, de Am\u00e9lia a Doralice. 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