É hora de AnaElisar, à esquerda, a política brasileira.

Barcelona, 29 de outubro de 2026.

‘A esquerda adora falar de estratégia política. Dessa vez, o mais estratégico foi este povo.’
(Gregorio Duvivier, Calma Urgente, 26/10/26).

Foram cinco segmentos mais estratégicos, nos quais se previa a virada histórica. Estes confirmaram a vitória de Lula.

Um deles é o mais geral, o eleitorado feminino. As mulheres do Brasil! Mais uma vitória do movimento feminista. Desde as mais famosas revoluções: a francesa e a russa. A história segue em débito com elas.

Primeiro recado: homens, finalmente, saiam da frente. Pelamordedeus. Acabamos de nos consolidar (doa a quem doer) como o segmento menos estratégico da luta antifascista. Ou os que mais precisamos aprender com isso. A maior quantidade de votos que teve o fujão, covarde, foi de homens brasileiros.

Como sempre, haverá algo a fazer. Homens de esquerda, façamo-nos esta pergunta conjunta: agora, abrindo um novo ciclo político, qual o nosso papel nisso tudo? Convido-os à terapia coletiva, juntos. Sem medo de ser feliz. @1flaviocarvalho

Claro que estamos longe de nos comparar aos machos fascistas. Porém, isso não nos desobriga de avançar mais ainda o debate sobre as tais estruturas patriarcais. Que acabamos nos beneficiando. Queiramos ou não queiramos.

Outros quatro segmentos específicos voltaram a entrar para a história do país.

Minha mãe ‘entrou’ para a política, já na ‘terceira idade’, em Olinda, ajudando a construir políticas públicas, estatuto, conselhos participativos, para as pessoas idosas. Está no céu (pra onde subiu, no começo da Pandemia), orgulhosa, do que vimos no domingo passado, salvando a nossa pátria da ameaça fascista.

Aliás, desde então, eu só chamo o fascismo pelo seu nome. Como Safatle. Sem vacilos.

Por outro lado, comprei todas as brigas com parte da esquerda, da qual faço parte. Atacaram um segmento nosso, para mim o mais estratégico (por ser estrutural), chamando-os de Identitários. Por dois motivos: aquele medo, enrustido, branquilegiado macho de perder poder, como falei acima; e contra tudo que não for aquele jeito tradicional de fazer política que fracassou, faz tempo. E o pior cego…

Antes chamavam pejorativamente de Minoritários, quem é exatamente A Maioria. O Movimento Negro, Trans, LGBTQIAPN+, povos indígenas, comunidades quilombolas e ribeirinhas votaram no PT. Érika, Jones, Renato Freitas, Ana Elisa… Calaram tanto a esquerda privilegiada quanto os racistas.

Segundo recado para nós do PT. O mais claro de todos.

Meus dois filhos, brasileiros e catalães, votaram pela primeira vez. Sua mãe viajou muitos quilômetros, trazendo-os para votar em Lula. São estudantes. Este foi o segmento mais expressivo, quantitativamente e qualitativamente, assumindo hoje, no presente, não somente o futuro do nosso país. A luz de Lula para o mundo! Preparemo-nos para escutar ativamente a juventude. É hora do movimento #saidafrente. Às vésperas do dia do Saci, a carapuça vai cair.

O quinto segmento remete também a eles, meus filhos, e a uma imensa maioria de jovens no exterior, diretamente.

Nós, mais de 6 milhões de pessoas brasileiras no exterior, somos os mais esquecidos pelo governo que defendemos com unhas, dentes e votos. Sim, somos! Infelizmente posso comprovar que isso é verdade, na minha vida de 2 décadas como emigrante. Falo honestamente, por experiência. Escrevi antes da eleição de Lula que, mesmo assim, seríamos, a brasileirada no exterior, tão importantes quanto a Região Nordeste do Brasil (o segmento populacional sempre mais à esquerda, orgulho de todo o país). Pois, eis a prova! Aqui a temos.

A jornalista Julia Affonso, do UOL, publicou a lista dos 51 locais (entre milhares!). No mundo inteiro, onde Lula mais ampliou votos entre o primeiro e o segundo turno. Em resumo, a maior capacidade de recuperação na virada. Entre os primeiros lugares, encontram-se as urnas destas cidades: Porto e Lisboa. Londres. Nova York. Paris. Toronto. Dublin. Munique. Zurique. Milão. Barcelona. Boston.

Quero ver, agora, todo mundo agradecendo à brasileirada no exterior.

Aquela que recebeu até proposta bolsonarista de retirar o seu direito a voto, se o fascismo não tivesse novamente perdido.

Detalhe importante! Em todas estas metrópoles centrais, a campanha foi liderada ou coordenada por uma força política que reivindica, ano após ano, maior atenção e cuidado por parte da Direção Nacional do PT: os Núcleos do partido no exterior.

Agora reclamaremos a mudança na lei eleitoral para que as urnas não estejam tão distantes das famílias brasileiras no exterior, que também querem e merecem votar. Além disso, pressionaremos ainda mais o Itamaraty para realizar acordos bilaterais que nos permitam (assim como peruanos, equatorianos e tantos outros) poder votar em eleições locais, espanholas.

Aos 81 anos, Lula (e o PT) finalmente sabe que o mais importante na vida, algumas vezes, não é nem o que deve ser feito: é o que não deve se repetir.

Viva Myrella Santana, coordenadora da vitoriosa campanha de Jones Manoel.

@1flaviocarvalho. Sociólogo. Coordenador do Núcleo do PT em Barcelona, junto com Heike Weege (de fato, a mulher que – com Flavia Costa e um imenso mar de mulheres de luta – merece todo o mérito por haver atravessado todas as crises e ataques contra o PT, num trabalho árduo de muitos e muitos anos).

A história não se faz num só dia.

Flavio Carvalho

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