E a pernambucana, mais que sua filha.
Barcelona, 17 de fevereiro de 2026.
Por Flavio Carvalho, sociólogo e escritor.
@1flaviocarvalho
“Não tem como ser neutro na vida,
e na arte menos ainda.
A arte é sempre política,
mesmo que seja para dizer que não é.”
(Wagner Moura)
Estávamos em Berlim. Na velha fábrica que tornou-se sede da Fundação que homenageia a grande comunista alemã, Rosa Luxemburgo. Era o segundo Encontro Internacional da FIBRA.

Procurei pela Filha do Maestro Nunes, tal como me haviam dito que era ela, uma das principais brasileiras que criaram aquela frente internacional antifascista, chamada Frente Internacional Brasileira Contra o Golpe (haviam acabado de afastar, injustamente, a Presidenta Dilma) e pela Democracia.
Márcia Nunes estava sentada no chão com o computador portátil na mão, trabalhando sem parar. E olha que ela era a personagem principal daquele evento com dezenas de pessoas vindas de vários países (como eu).
Conheci o seu pai, Maestro Nunes, quando me matriculei para tentar (sem êxito) aprender violão no Centro de Educação Musical da nossa cidade, Olinda. O CEMO era popularmente conhecido como Casarão Rosa e Nunes era o fundador e diretor.
Dou um pulo no tempo.
Hoje, 17 de fevereiro, estrearemos aqui em Barcelona, O Agente Secreto, filme brasileiro (pernambucaníssimo!) indicado ao Oscar. Nele, no filme, na cena principal, antecedida do momento de maior tensão do filme, é carnaval (como hoje, terça de carnaval). Uma explosão de vida, no Centro da Cidade, onde um personagem corre pra escapar da morte. Um frevo explode na telona.
Me emocionei ao escutar, ontem, de repente, aquele mesmo frevo, tocando numa importante rádio da Catalunha. Era um dos muitos frevos de Nunes, o Maestro que faleceu exatamente num 14 de setembro, Dia Nacional do Frevo.
Aquela maravilhosa música que abrilhanta ainda mais a atuação do brasileiro Wagner Moura, composta e predestinada para se tornar um grande Hit popular, se chama Cabelo de Fogo. E hoje, terça-feira de carnaval, será tocada em todas as ruas da cidade onde eu nasci. Também no Cinema, aqui perto, em Barcelona (Espanha).
Nunes vive.
O Maestro nasceu na região que deu origem ao projeto colonial (empresarial) de país tal como o conhecemos. Homem negro, viveu de perto a pior exploração humana possível: as formas de escravidão antigas e modernas. A produzir açúcar para o mundo inteiro, a partir do duríssimo corte manual da planta, a cana-de-açúcar. Base fundamental do latifúndio que fez o Brasil ser o que ainda hoje é.
Artista, insatisfeito, o Maestro atuou clandestinamente no Partido Comunista Brasileiro e no importantíssimo Movimento de Cultura Popular, junto com personalidades como o pedagogo Paulo Freire e o escritor Ariano Suassuna. Perdeu amigos na luta direta com a ditadura empresarial-militar, principalmente por ser ele, Nunes, um ativista político clandestino, morador da periferia e com acesso aos mais empobrecidos. Tornou-se, assim, um dos fundamentais encarregados de circular o jornal do PCB, chamado Novos Rumos. Sempre mencionou o sofrimento de ter passado dias e noites escondidos “no meio da mata” (um bosque fechado como ainda há poucos em Pernambuco).
Outro dos seus frevos mais conhecidos, Mosquetão, fez com que Nunes sofresse severa perseguição política. Exatamente quando ele entrou, por concurso público, na Banda de Música da cidade do Recife. Mosquetão (o nome de uma arma de fogo) trazia referência explícita ao assassinato de estudantes que protestavam e morreram tiroteados pelo exército.
Vida de artista. Num país que tem sua música louvada aqui em Barcelona, em Amsterdam (onde vive Marcia Nunes), nos Estados Unidos (onde Wagner Moura segue trabalhando).
Epílogo.
Rosa Luxemburgo foi assassinada por ativistas contrários às suas ideias comunistas, em 1919.
José Nunes de Souza foi o homenageado oficial do carnaval da capital de Pernambuco, Recife, em 2007, ano especial do centenário do Frevo (em referência ao ano em que foi registrado pela primeira vez).
Marcia Nunes, mais que A Filha do Maestro, está em Pernambuco, aproveitando o carnaval. www.fibrainternacional.org é a website da exitosa organização internacional que ela criou em 2016.
É nela que você está lendo este texto.
Evoé!
Aquele abraço.
Nota: Os textos, citações e opiniões deste texto podem não expressar – no todo ou em parte, a opinião dos Coletivos da Fibra.